Sentia...Senti-se eu.
Sentia o meu corpo quente, a arder, como se estivesse dentro de uma fogueira em pleno Inverno...Ardesse antes o meu corpo por outras razões, mais positivas, mais gloriosas, mais excitantes.
Sentia dores em cada pequeno osso que completa o meu esqueleto...Sentisse antes essas dores por ter dançado uma noite sem parar.
Sentia dores no peito, dores que não eram de amor ou desamor, dores que se intensificavam a cada respiração, a cada sufoco, a cada suspiro.
E fui até ao sítio que mais resistência faço, o sítio que equiparo a uma casa assombrada, como aquelas que nos contam nas histórias de criança. Fui ao Hospital.
Vi rostos de sofrimento, vi rostos de solidão, vi rostos de desespero. Apesar de vê-los meio distorcidos, pois a realidade estava atarantada, tentava perceber o que poderia cada rosto daqueles estar a transmitir, estar a sentir, estar a demonstrar.
Ouvi soar o meu nome. Entrei. O termómetro marcava mais de 39 graus (ai, fossem esses 39 graus marcados por dois corpos nus, unidos num só). Fizeram-me inúmeras questões, perguntas, suposições. Suposeram até que poderia ter sido um virús apanhado pela minha cadela, vejam só, pobre bicha, com todas as vacinas em dia, e que à 3 dias que permanecia sempre ao meu lado a chorar...Eles sentem, sentem mais que nós.
E eu ali estava. Cansada, atarantada e sem qualquer controlo sobre o meu corpo. Odeio não controlar o meu corpo, sentir-me impotente com o meu corpo, não saber o que fazer para melhorar o meu corpo.
Fui picada...análises, medicamentos, raio-x. E pensava eu como é que a merda de um químico tinha mais controlo sobre o meu corpo do que eu própria? Estava fraca, de qualquer forma, nada podia fazer se não deixar-me ser tratada pelos senhores de bata branca.
O relógio já marcava duas da manhã quando me chamaram: "tem uma pneumonia atípica, provavelmente apanhou o virús no seu trabalho". A sério? Depois de terem a indecência, a frieza, a hostilidade de pensarem em culpar a minha cadela, dizem-me que apanhei no meu trabalho? Enfim, não me apetecia argumentar. Naquela altura, só imaginava a minha cama, queria deitar-me, descansar, sonhar.
Será que existe o vírus da pneumonia do amor? Tivesse antes eu esse vírus, tivesse antes eu a febre de dois corpos nus deitados e abraçados, doesse-me antes o corpo depois de uma noite de amor intenso, senti-se antes eu as dores no peito depois da respiração ofegante de duas bocas unidas.
